Vilém Flusser professor, autor da obra: ”Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia” revolucionou a pesquisa no campo da comunicação ao propor que as imagens contemporâneas não estabelecem qualquer relação com as imagens antigas.
As novas imagens são estabelecidas através de um tecnicismo carregado de conceitos que nos remete a fórmulas matemáticas e cálculos. Flusser afirma que as novas imagens excluíram o poder da palavra e que as mesmas exercem um poder de influência sobre a sociedade, portanto a pesquisa deve-se concentrar no campo da imagem. Sua pesquisa não consegue desvencilhar-se da duplicidade de sua intenção, pois Flusser acredita que toda ação humana é uma representação matemática de duas variáveis, portanto a vontade desaparece diante da casualidade.
Vilém Flusser nasceu em Praga, mas com uma influência cultural alemã pode-se situá-lo, integrante da geração de críticos alemães da comunicação, tal como GüntherAnders, Friedrich Kittler e Dietmar Kamper. Do ponto de vista intelectual, Flusser situou-se originalmente na fenomenologia, especialmente em sua derivação heideggeriana, podendo-se dizer que tendia mais para Anders do que para McLuhan – numa posição “[...] entre conjecturas etimológicas de Heidegger e exageros metódicos de Anders” (HARTMANN, 2000). Dizer que seu pensamento era fenomenológico é o mesmo que dizer – como já o fizeram antes dele Brecht e Benjamin - que os equipamentos técnicos poderiam ser apreendidos segundo sua intencionalidade, isto é, como meios passivos, mas que podem ser igualmente ativos. De McLuhan, Flusser incorporou a substituição da Galáxia de Gutenberg pela aldeia global, passagem essa, contudo, que só lhe interessava como exemplo de seu tema principal: a importância da mudança do código dominante na história da comunicação. Mas seu pensamento foi amadurecendo para a “filosofia do projeto”.
A filosofia, para Vilém Flusser, não poderia mais proceder de forma discursiva, ela teria que se adequar aos novos tempos da imagem. Se no final do século XIX, na discutível tournant linguistique, a filosofia não ocorria mais sobre uma língua, mas com a língua, a filosofia mediática deveria ser agora, segundo ele, um filosofar com os meios de Comunicação. Saindo da fenomenologia clássica, Flusser vai dizer, em seu Elogio da superficialidade, de 1993, que nós não percebemos a realidade, mas, antes, que a construímos, ou então, que processamos o percebido como realidade.
Em sua obra Filosofia da Caixa Preta o autor tenta trazer vários conceitos para fotografia, assim como Roland Barthes e Susan Sotang, mas a fotografia em sua profusão de significados não se permitiu uma conceituação estanque.
Vilém procurou introduzir um pensamento pós-histórico, onde os valores se vêem frágeis diante de um processo contínuo de alienação, substituindo a sociedade do objeto pela sociedade da informação. A questão da superação da palavra pela imagem, que em seu aspecto mágico nos traz indagações conflituosas, pois como explicar que a mágica oferecida pela imagem substitui a realidade transformando-a em um modelo de vida, pois a imagem fala por si só. A obra Filosofia da Caixa Preta engaja-se em propor a reflexão de um elemento indispensável para a compreensão da imagem do aparelho da informação e do programa, e acima desse conceito deve-se pairar a reflexão.
A imagem técnica (fotografia) é dotada de realidade presente, é imagem de fato, parece pressentir o mundo, mas apenas o representa tão forte que se torna real com uma força de verdade incontestável. A fotografia é um papel, um objeto, mas com uma superfície repleta de informações, e o poder não é de quem possui objetos e sim informações.
Vilém Flusser autor de Filosofia da Caixa Preta diz: “Quem observar os movimentos de um fotógrafo munido de aparelho (ou de um aparelho munido de fotógrafo) estará observando movimento de caça. O antiqüíssimo gesto do caçador paleolítico que persegue a caça na tundra. Com a diferença que o fotógrafo não se movimenta em pradaria aberta, mas na floresta densa da cultura seu gesto é estruturado por essa taiga artificial e toda fenomenologia do gesto fotográfico deve-se levar em consideração os obstáculos contra os quais o gesto se choca...” (Filosofia da Caixa Preta – pg.19).
A relação entre o fotógrafo e o aparelho é algo sensível e cativante, pois está interação remete ao fotógrafo a tentativa de se desvencilhar das limitações impostas pelo aparelho, no intuito de se sentir livre em seu ofício. Vilém nos propõe a discussão a respeito de tecnologias inteligentes que tornaria o fotógrafo não menos eficiente, mas menos pensante. Para Vilém o fotógrafo tem que sentir a vibração da máquina, cativá-la e ser cativado por ela, uma extensão de próprio corpo onde cada instante seria um momento sugestivo ao olhar e á captura da imagem.
O universo fotográfico como afirma Vilém representa o mundo lá fora, onde este mundo fotográfico existe em preto e branco, mas existe realidade em preto e branco? E as cores seriam reais? O colorido da imagem seria melhor com a máquina Cannon ou Sony, pois a atração presente nas fotografias em preto e branco é definida pela magia conceitual na ausência da cor.
A fotografia como elemento receptáculo e fonte de informação é partilhada pela sociedade por uma profusão de canais, políticos, artísticos, passíveis de inúmeras interpretações onde a fotografia assume identidade própria de acordo com o canal que lhes atribuem significados distintos. Neste instante Flusser aponta a real significação do oficio do crítico de fotografia que é mostrar a relação entre o aparelho e o fotógrafo, informando a função codificadora do canal de distribuição ilícita, pré-estabelecendo o comportamento do profissional colocando em questão sua autonomia ao capturar a imagem, pois a publicação de sua imagem tem que obedecer aos padrões do canal de distribuição limitando as possibilidades da imagem. Flusser estimula o fotógrafo a romper com essas limitações impostas pelo canal, deixando de analisar as imagens canalizadas, tornando-as realmente visíveis e eliminando a manipulação informativa da imagem, deixando de testemunhar a vitória do aparelho sobre a sociedade.
Flusser em seu trabalho Filosofia da Caixa Preta propõe uma solução á alienação da imagem que é o pensamento livre das imposições canalísticas. Filosofia da Caixa Preta é um livro marcante, pois nos remete à idéia de pensar a limitação do pensamento pelo aparelho, não apenas em relação à fotografia, mas em todos os universos aparelhísticos alienantes.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janerio: Relume Dumará, 2002.
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